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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A décima primeira hora, do décimo primeiro dia, do décimo primeiro mês



Para além do lado curioso que a data adquiriu, este ano, não esquecemos o significado maior que encerra a décima primeira hora, do décimo primeiro dia, do décimo primeiro mês.

Nesse preciso momento, em 1918, o silêncio caiu ao longo de uma linha que se estendia desde a costa belga, perto de Nieuport, até à fronteira suíça. Tinham passado mais de quatro anos desde que as armas se fizeram ouvir na Europa.

Nomes como Ypres, Loos, Verdun, Passchendaele, Somme, Chemin des Dames, Neuve Chapelle, Messines, Vimy Ridge, La Lys, Cambrai, Arras ou Belleau Wood, passaram a evocar linhas de homens a avançarem curvados na direcção de granadas de artilharia e balas de metralhadora, ou enterrados em buracos infectos. Vítimas de uma guerra do século XX travada com a mentalidade e as tácticas do século XIX.

Esquecer a nossa história é tão perigoso como falhar a compreensão do presente. Por isso, convém relembrar que o armistício entrou em vigor às onze horas do dia onze de Novembro de 1918. O interlúdio para um segundo conflito que surgiria vinte anos depois, rasgado a ódio e vingança nas cicatrizes mal curadas do primeiro.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Recordar o Verão de 1914



"As luzes apagam-se em toda a Europa; não viveremos o suficiente para tornar a vê-las acesas."

Sir Eward Grey, Ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, 3 de Agosto 1914


Há toda uma cronologia do horror que se desenrola durante aquele Verão fatídico.

Desde a morte do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono Austro-Húngaro, às mãos de nacionalistas sérvios, a 28 de Junho, até à entrega do ultimato à Sérvia, a 23 de Julho, multiplicam-se contactos e intrigas que envolvem diplomatas, governantes, militares e cabeças coroadas da Europa.

O Chefe do Estado Maior, Conrad Von Hotzendorff e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Leopold Von Berchtold acabam por conseguir impor a guerra entre a Austria-Hungria a Sérvia.

A Alemanha alinha ao lado dos seus vizinhos. A Rússia promete proteger a Sérvia. França e Inglaterra estão com a Rússia.

As ordens de mobilização sucedem-se. A 28 de Julho, um mês após os eventos de Sarajevo, a artilharia austro-húngara bombardeia a Sérvia na outra margem do Danúbio.

A 2 de Agosto tropas Alemãs ocupam o Luxemburgo e ameaçam entrar pela Bélgica no primeiro passo do Plano Schlieffen de invasão da França.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Recordar Gavrilo Princip



O sérvio-bósnio Gavrilo Princip nasce em 1894. Filho de um carteiro, Gavrilo é o quarto de nove irmãos dos quais seis morrem durante a infância.

Frequenta a escola em Tuzla e Sarajevo, mas em 1912 muda-se para Belgrado. Na capital da Sérvia junta-se à organização nacionalista Mão Negra que defende a união entre a Bósnia-Herzegovina (anexada pela Aústria-Hungria em 1908) e a Sérvia.

Ao saber que o herdeiro do trono Austro-Húngaro tem uma visita programada a Sarajevo o Coronel Dragutin Dimitrijevic, chefe dos serviços secretos do exército sérvio e lider da Mão Negra, decide enviar um grupo para o assassinar: Gavrilo Princip, Nedjelko Cabrinovic and Trifko Grabez seguem para a capital da Bósnia um mês antes. A eles junta-se Danilo Ilic que recruta três outros homens. Vaso Cubrilovic e Cvijetko Popovic, dois jovens estudantes de 17 anos, e o muçulmano bósnio Muhamed Mehmedbasic. O grupo é armado com quatro pistolas sérvias e seis bombas. Cada um recebe ainda uma ampola de cianeto.

A 28 de Junho o Arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono Austro-Húngaro, inicia uma visita de estado a Sarajevo para inspeccionar as manobras militares de dois corpos de exército. Uma má escolha de data por coincidir ao mesmo tempo com o aniversário da derrota dos Sérvios no Kosovo em 1389 e com o dia nacional da Sérvia.

Curiosamente, Franz Ferdinand representa uma esperança credível para a renovação da velha e desgastada monarquia da Europa central. Simpatiza com as reivindicações eslavas e vê com bons olhos a concessão de mais autonomia às nacionalidades que compõem o império.

No meio da multidão que assiste ao desfile na solarenga manhã estão os seis conspiradores.

Cabrinovic atira uma das bombas para o carro do arquiduque, mas falha o alvo. Doze espectadores e dois membros da comitiva são feridos. O agente da Mão Negra tenta suicidar-se com uma ampola de cianeto e atira-se ao rio, mas acaba por ser capturado.

Franz Ferdinand insiste em continuar com o programa previsto. Mais tarde, pede para ir visitar um dos feridos. Um engano no percurso leva o condutor a virar para uma rua estreita. Por uma das maiores coincidências da história, foram ter a apenas dez metros de Gavrilo Princip. O jovem extremista dispara duas vezes. O carro acaba por conseguir recuar mas dois dos seus ocupantes estão feridos. O Arquiduque Franz Ferdinand e a sua mulher Sophie esvaiem-se em sangue e acabam por morrer.

Estes acontecimentos precipitam uma grave crise. A tensão latente entre o Império Austro-Húngaro e a Sérvia atinge um ponto de ruptura. Julho é um mês de ameaças e ultimatos. Os governos alinham-se segundo alianças pré-estabelecidas.

Apenas 30 dias após a morte de Franz Ferdinand e Sophie a Áustria-Hungria invade a Sérvia. A Europa está em guerra.


O destino dos conspiradores

Danilo Ilic, o único membro do grupo com mais de vinte anos, é condenado à morte e executado em 1915.

Os restantes membros do grupo escapam com penas de prisão.

Nedjelko Cabrinovic e Trifko Grabez são condenados a 20 anos e morrem de tuberculose em 1916.

Gavrilo Princip, o homem que premiu o gatilho naquela tarde de Verão em Sarajevo, morre da mesma doença em 1918.

Mais sorte tem Vaso Cubrilovic. Libertado no final da guerra, chega a professor universitário e Ministro das Florestas da Jugoslávia no governo de Tito. Morre em 1990.

Cvijetko Popovic também é libertado em 1919. Torna-se professor de história e, mais tarde, Curador do Departamento de Etnologia do Museu de Sarajevo.

O muçulmano Muhamed Mehmedbasic consegue fugir para Montenegro, é capturado pelas autoridades montenegrinas, mas consegue evadir-se. Em 1919 obtém o perdão total pela sua participação do atentado. É morto pelas milícias fascistas croatas em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial.

domingo, 17 de julho de 2011

Relembrar a sublevação nacionalista em Espanha



Relembrar o início da sublevação nacionalista em Espanha que originou a Guerra Civil de 1936-1939.

Relembrar que ocorreram massacres e idiotices em série dos dois lados das trincheiras e que é ingénuo pensar que os republicanos eram um grupo glorioso e heróico de boa gente a lutar contra os malvados fascistas.

Na prática, o meio-tintismo das democracias europeias deixou caminho aberto para um confronto entre ditaduras.

O nacionalismo de sacristia republicano, o fascismo italiano, o nacional-socialismo alemão, de um lado.

O comunismo paranóico e psicótico e assassino de Estaline - que tomou de assalto o lado republicano - do outro.

Por muito tentador que seja dividir este conflito no lado dos bons e dos maus, a verdade é muito mais complexa e horrível.

PS: "Cara al Sol" era o hino da Falange nacionalista, a tendência predominante no movimento rebelde.

domingo, 8 de maio de 2011

Um texto interessante sobre a ajuda portuguesa à Finlândia em 1940

Artigo publicado no jornal finlandês Ilto Sanomat:

O pacote de ajuda a Portugal foi marcante durante a campanha para as eleições parlamentares na Finlândia. Porém, poucos se lembram do que aconteceu há mais de 70 anos.

"Os finlandeses têm esquecido que Portugal enviou assistência durante a Guerra de Inverno" perguntou a TSF Rádio Notícias ao correspondente do Helsingin Sanomat, na quarta-feira.

Dois dias antes, o jornal português mais importante, o Diário de Notícias, também lembrou a ajuda de Portugal à Finlândia. O editorial foi intítulado "Portugal ajudou a Finlândia".

Talvez os finlandeses tenham esquecido o apoio de Portugual. Não se encontra qualquer referência nos livros de história (...).

Felizmente, os arquivos podem ser encontrados na Finlândia e em Portugal, entre a correspondência diplomática da primavera de 1940 (....)

Mostram que, a 14 De Março, um dia após o fim da Guerra de Inverno, o navio SS "Greta" deixou Portugal para levar até à Finlândia 19.902 caixas de sardinha, 956 caixas de cebola, 157 caixas de conservas de peixe, 27 caixas de abacaxi, e um conjunto de caixas com sacos de água quente, blusas e, aparentemente, uma doação de esquis.

Portugal deu um apoio significativo durante a Guerra de Inverno, Dr. Jari Leskinen (Professor-Adjunto de História Militar)?

- É claro que qualquer ajuda é necessária, mas não foi muito significativa. Será essa a razão para não ser mencionada nas obras de referência.

Que valor teria esse tipo de ajuda hoje em dia, Prof. Markku Kuisma (Professor de História Económica)?

- Poucas centenas de milhares de euros, talvez um milhão de Euros.

Foi um grande fardo para a economia portuguesa?

-  Não foi um esforço terrível. Mais um gesto humanitário e político.

Que significado teve para a Finlândia?

- Não teve grande importância. Sem saber ao certo o tamanho de cada caixa de sardinhas, podemos estimar que, acompanhada por fatias de pão, talvez desse para alimentar um soldado finlandês durante um par de dias. Foi certamente mais importante como gesto de simpatia e apoio aos finlandeses.

Assim que a guerra eclodiu, a Finlândia enviou delegações e pedidos de assistência a vários países. O pedido também foi enviado para o Governo Português.

Lamentando profundamente, o governo Português declarou que os seus arsenais eram insuficientes para pode vender ou dar armas.

Em vez de armas Portugal disse que poderia enviar milho, açúcar, café, cacau, sal, madeira, vinho e óleo vegetal. Em que quantidade, não sei dizer.

No auge da Guerra de Inverno o exército finlandês tinha 400 mil homens e chegou a ser distribuída uma caixa de sardinhas por 20 homens.


(Adaptado a partir da tradução automática do original, em finlandês, com recurso ao Google Translator. Qualquer erro em relação ao artigo original é, por essa razão, da responsabilidade do autor deste blogue)

Fonte: Ilta Sanomaat

A partir de um comentário visto aqui: Fórum Auto-Hoje

A diferença está na fruta (ou em saber o que se diz)

Ontem, ao escrever sobre o fantástico vídeo dos finlandeses, recordei-me deste texto de Nicolau Santos. Não o consegui encontrar, mas entretanto, alguém fez o favor de o relembrar.

Se o tal vídeo é um exemplo de ignorância, inexactidão e provincianismo, o texto é a prova de que se pode fazer uma apologia de Portugal sem cair no ridículo.


(publicado na revista "Up" da TAP)


Eu conheço um país
Que em 30 anos passou de uma das piores taxas de mortalidade infantil
(80 por mil) para a quarta mais baixa taxa a nível mundial (3 por mil).
Que em oito anos construiu o segundo mais importante registo europeu de
doadores de medula óssea, indispensável no combate às doenças leucémicas.
Que é líder mundial no transplante de fígado e está em segundo lugar no
transplante de rins. Que é líder mundial na aplicação de implantes imediatos
e próteses dentárias fixas para desdentados totais.
Eu conheço um país
Que tem uma empresa que desenvolveu um software para eliminação do papel
enquanto suporte do registo clínico nos hospitais (Alert), outra Que é uma
das maiores empresas ibéricas na informatização de farmácias(Glint)e outra que inventou o primeiro antiepilético de raiz portuguesa (Bial).
Eu conheço um país
Que é líder mundial no sector da energia renovável e o quarto maior produtor
de energia eólica do mundo, Que também está a construir o maior plano de
barragens (dez) a nível europeu (EDP).
Eu conheço um país
Que inventou e desenvolveu o primeiro sistema mundial de pagamentos pré-pagos para telemóveis (PT), Que é líder mundial em software de identificação (NDrive), Que tem uma empresa que corrige e detecta as falhas do sistema informático da NASA (Critical) e que tem a melhor incubadora de empresas do mundo (Instituto Pedro Nunes da Universidade de Coimbra) Que calça cem milhões de pessoas em todo o mundo e que produz o segundo calçado mais caro a nível planetário, logo a seguir ao italiano.
E que fabrica lençóis inovadores, com diferentes odores e propriedades anti-germes, onde dormem, por exemplo, 30 milhões de americanos.
Que é o «state of art» nos moldes de plástico e líder mundial de tecnologia
de transformadores de energia (Efacec) e Que revolucionou o conceito do papel higiénico(Renova).
Eu conheço um país
Que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial e que desenvolveu um sistema inovador de pagar nas portagens das auto-estradas(Via Verde).
Que revolucionou o sector da distribuição, que ganha prémios pela construção
de centros comerciais noutros países (Sonae Sierra) e Que lidera destacadíssimo o sector do «hard-discount» na Polónia (Jerónimo Martins).
Eu conheço um país
Que fabrica os fatos de banho que pulverizaram recordes nos Jogos Olímpicos
de Pequim, Que vestiu dez das selecções hípicas que estiveram nesses Jogos,
Que é o maior produtor mundial de caiaques para desporto, Que tem uma das melhores seleções de futebol do mundo, o melhor treinador do planeta (José
Mourinho) e um dos melhores jogadores (Cristiano Ronaldo).
Eu conheço um país
Que tem um Prémio Nobel da Literatura (José Saramago), uma das mais notáveis
intérpretes de Mozart (Maria João Pires) e vários pintores e escultores
reconhecidos internacionalmente (Paula Rego, Júlio Pomar, Maria Helena
Vieira da Silva, João Cutileiro).
Que tem dois prémios Pritzker de arquitectura (Sisa Vieira e Souto Moura).
O leitor, possivelmente, não reconhece neste país aquele em que vive ou que
se prepara para visitar. Este país é Portugal. Tem tudo o que está escrito
acima, mais um sol maravilhoso, uma luz deslumbrante, praias fabulosas,
ótima gastronomia. Bem-vindo a este país que não conhece: PORTUGAL

sábado, 7 de maio de 2011

As estórias que andamos a tentar impingir aos finlandeses...

Os fenícios, os gregos, os romanos, os vândalos, os suevos e os visigodos passaram por cá e por inúmeros outros lugares.

Se 20% da população luxemburguesa é de origem portuguesa, se Paris é a segunda cidade com maior número de portugueses, se existem mais portugueses fora do país do que em Portugal, isso é motivo de orgulho porque...?

Nós não inventámos nem a "maritime compass" (seja lá isso o que for) nem sequer o astrolábio. A descoberta foi árabe e aperfeiçoada por um judeu espanhol chamado Abraão Zacuto.

Também não inventámos o canhão de carregar pela culatra.

A vela latina foi inventada pelos árabes.

A salga do peixe é usada em diversas partes do mundo desde tempos imemoriais por ser uma forma eficaz de preservar o pescado.

A tecnologia da Via Verde foi criada na Noruega.

Se somos o país com menor número de patentes em todo o mundo isso é, na verdade, algo negativo.

Arigato não é uma palavra de origem portuguesa. Tem origem numa outra palavra japonesa: arigatai.

Existem palavras japonesas que tiveram origem no português? Sim, bastantes: "botan" (botão), ou "bôru" (bolo), por exemplo.

O decreto de abolição da escravatura é de 1761 (e não de 1751) e aboliu a escravatura apenas em solo português. Em meados do século XIX ainda andávamos a assinar tratados em que prometíamos pôr fim ao tráfico de escravos a sul do Equador. Chegámos mesmo a permitir que os ingleses efectuassem buscas em navios de bandeira nacional.

Praticamente todas as culturas com forte presença do porco na sua culinária comem "o porco todo" e têm pratos com as entranhas do bicho.

Napoleão não falhou as três invasões de Portugal. A primeira foi bem sucedida e provocou a fuga da Corte para o Brasil.

Nessa altura, Portugal nem sequer tinha um exército organizado para fazer face aos invasores.

Foi apenas graças a uma força expedicionária britânica que os franceses retiraram do país. Essa mesma força repeliu outras duas invasões e ajudou a reorganizar o exército português cujas unidades eram, em muitos casos, enquadradas por oficiais britânicos.

Se for verdade que o rendimento do rei de Portugal no séc. XVIII era 30 vezes superior ao do rei de Inglaterra isso apenas comprova a má gestão que foi feita da riqueza proveniente do Brasil enquanto a Inglaterra construía o seu império.

O Hóquei em Patins é popular em vários países que têm partilhado títulos com a selecção portuguesa, nomeadamente a Itália, a Espanha e a Argentina.

Temos a aliança mais antiga do mundo e levamo-la muito a sério. Os ingleses também.

Após as invasões francesas tornaram-se numa força ocupante e tentaram assumir o controlo do país.

No final do séc. XIX ameaçaram-nos com uma guerra se insistíssemos em unir as colónias de Angola e Moçambique.

A letra do nosso hino nacional continua a incitar os portugueses a pegar em armas e marchar contra os canhões britânicos.

Por mais que nos custe, não foi a manifestação dos portugueses que levou a Indonésia a abandonar Timor-Leste.

Por fim, a campanha de recolha de roupas e cereais realizada em 1940 só aconteceu porque Salazar quis apoiar um aliado da Alemanha Nazi que lutava contra as tropas comunistas de Estaline.

Esse aliado de Hitler era a Finlândia.

Não sei o que é mais preocupante, se a quantidade de pessoas que acreditam nestes mitos - semelhantes aos que pululavam nos livros de história do Estado Novo - se o facto de ser assinado por um organismo público, a Câmara de Cascais.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Salazar vai ao cinema II

Neste blogue só cabe aquilo em que realmente acredito e que me interessa.

Quando um livro combina duas paixões - a história e o cinema - a reacção só pode ser uma chuva ininterrupta de saltos de alegria e palminhas.

Cá vai disto: 
O livro "Salazar vai ao cinema II" de Maria do Carmo Piçarra é lançado na Cinemateca Portuguesa, hoje, às 19h30. Na sessão, apresentada por Joaquim Vieira e pela autora, serão mostrados os números 1 e 17 da série de actualidades da SPAC, Jornal Português. A seguir, haverá uma sessão de autógrafos na livraria Babel Cinemateca, no Espaço 39 Degraus.

Links fundamentais: 

O blogue Salazar vai ao cinema

Como e onde pode comprar o livro

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Ó Steed, as personalidades do ano da Time são todas muito boazinhas?

Não.

As personalidades do ano são escolhidas pela influência que tiveram:

a) Nos Estados Unidos (nos anos em que optam pela prata da casa)

b) No mundo (quando a prata da casa é fraca ou alguém dá mesmo muito nas vistas).

c) Em ambos, como é o caso deste ano.

Tudo isto a propósito da escolha do menino Zuckerberg como Personalidade do Ano 2010.

Vamos esclarecer o seguinte, a escolha é da responsabilidade da publicação. Todo o barulho sobre o facto de o moço Assange ser o preferido do público é um pouco deslocado. O Senhor das Fugas foi o mais votado numa eleição online. Só isso.

Entretanto, uma conversa com amigos sobre o tipo de pessoas que normalmente são escolhidas como Personalidade do Ano serviu de pretexto para mergulhar na história da distinção.

Com a valiosa ajuda do sítio da Time consegui recolher em poucos minutos alguns dados engraçados (abençoada Internet!).


Era uma vez a pessoa do ano...

Tudo começou em 1927. Nessa altura, levou a designação de "Men of the Year" e o primeiro escolhido foi Charles Augustus Lindbergh, acabadinho de completar o primeiro voo transatlântico da história, entre os EUA e França. Mais tarde ficaria ligado à furiosa defesa do isolacionismo americano e seria acusado de simpatizar com os regimes fascistas europeus.

A década terminou com a distinção de dois homens de negócios. Em 1929 deu-se o Crash da Bolsa. Foram precisas décadas para que os gestores de empresas regressassem à capa da Time.

A década de 30 começou com a distinção do Sr. Mohandas Ghandi. Estranho sinal. Um pacifista a marcar o início de uma época de guerra e violência extrema.

O homem seguinte é, só por si, uma lição de história. Pierre Laval começou como deputado socialista, foi Presidente do Conselho de Ministros Francês em diversos governos antes da guerra, regressou a convite de Petáin durante o Regime colaboracionista de Vichy, assinou os infames despachos de deportação dos judeus franceses e acabou julgado e executado pelos compatriotas em 1945.

Frankin Delano Roosevelt levanta pouca contestação. Apareceu três vezes na capa da Time: em 1932, 1934 e 1941.Foi o único a conseguir tal proeza.

Em 1936 surge a primeira mulher. Infelizmente, não porque tenha concretizado algo de maravilhoso ou revolucionário. Wallis Warfield Simpson limitou-se a fazer andar à roda a cabeça de um futuro Rei de Inglaterra.

As duas capas mais interessantes do século vêm a seguir. Adolf Hitler em 1938 e Stalin em 1939. Eis a resposta à pergunta que dá título a este texto: não, as capas da Time Magazine não são garantia de santidade. Pior ainda, Ioseb Jughashvili voltou a ser Personalidade do Ano em 1942.

Winston Churchill surge em 1940, na altura em que só a Grã-Bretanha resistia á loucura nazi. Repete nove anos depois, como personalidade da primeira metade do século.

No resto da década de 40 a América decidiu recompensar os seus heróis e governantes com Marshall e Truman a bisarem.

O pós-guerra viu mudanças de cenário e de aliados. Em 1950, a distinção foi atribuída, pela primeira vez, a um grupo de pessoas: os soldados americanos. Uma honra repetida recentemente, em 2003.

Em 1956 a honra colectiva foi para os "combatentes pela liberdade", na Hungria.


A opção pelo lado sorridente da vida

Em 1979, a Time escolheu, pela última vez, um "vilão". Foram tantos os protestos pela escolha do Ayatollah Khomeini que, desde aí, a revista optou por escolhas menos polémicas. Albert Einstein como Personalidade do Século, em vez de Adolf Hitler. Rudolf Giuliani no lugar de Osama Bin Laden no ano do ataque terrorista a Nova Iorque.

Essa opção pelo lado mais positivo (e politicamente correcto) da actividade humana pode explicar a opção dos editores por Mark Zuckerberg.

Por outro lado é bom relembrar que as fugas de informação já foram premiadas uma vez com a presença na capa do número especial da Time Magazine. Em 2002, três mulheres denunciaram casos graves em duas grandes empresas, a Enrom e a Worldcom, e no FBI. Apareceram em conjunto, na capa, sob a designação de "Whistleblowers" (mais ou menos aquelas que puseram "a boca no trombone").

Ligações de interesse:
Todas as capas de Personalidade do Ano da Time Magazine
A Personalidade do Ano 2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O significado da papoila


Um dia de Verão em Sarajevo

No dia 28 de Junho de 1914 o herdeiro do trono Austro-Húngaro está em Sarajevo para comandar manobras militares.

Franz Ferdinand representa uma esperança credível para a renovação da velha e desgastada monarquia da Europa central. Simpatiza com as reivindicações eslavas e vê com bons olhos a concessão de mais autonomia às nacionalidades que compõem o império.

No meio da multidão que assiste ao desfile estão seis conspiradores da organização Mão Negra, treinados na Sérvia. A Mão Negra, tem como objectivo a separação da Bósnia do império governado pelos Habsburgos e a integração na Sérvia.

Durante a manhã, uma bomba é atirada para o carro do arquiduque mas falha o alvo e apenas fere dois oficiais da comitiva. Franz Ferdinand insiste em continuar com o programa previsto. Mais tarde, pede para ir visitar os feridos.

O condutor vira por engano para uma rua estreita. Por uma das maiores coincidências da história, foram ter a apenas dez metros de um dos conspiradores, Gavrilo Princip. O jovem extremista dispara duas vezes. O carro acaba por conseguir recuar mas dois ocupantes estão feridos. O Arquiduque Franz Ferdinand e a mulher, Sophie, esvaiem-se em sangue e acabam por morrer.

O Arquiduque Franz Ferdinand com a família.


O cenário
A guerra franco–prussiana de 1870 fora o último grande embate entre potências europeias. Uma guerra rápida, travada por pequenos exércitos, compostos por voluntários que escolheram uma carreira militar.

A Alemanha, estado recém-criado em redor da poderosa Prússia, saiu vencedora e recebeu os territórios da Alsácia e da Lorena das mãos de uns vexados Franceses que não esqueceram a derrota.

Desejoso de se impor no equilíbrio das potências europeias, o império de Guilherme II tinha mais ambições. A aquisição de domínios coloniais, fonte de prestígio; de bases navais de relevância estratégica e de matérias-primas; a anexação da Polónia; o aumento da sua influência na região do Báltico e aumentar o seu poderia naval de modo a poder competir com a Grã-Bretanha em termos bélicos e comerciais.

A guerra servia ainda os desejos das pequenas nações que desejavam romper com os impérios e afirmar a sua autonomia. magiares e eslavos a partir do império Austro-Húngaro, arménios e árabes no interior do Império Otomano.

Resumindo, a França cultivava o ódio pela Alemanha com base na derrota de 1870; A Alemanha invejava o poderio naval e o império colonial Britânico; A Austro-Hungria estava em tensão com a Rússia por causa do apoio destes à causa das autonomias eslavas. A Grã-Bretanha temia o aumento da influência Alemã nos mares e a sua ligação crescente com a Turquia que poderia colocar o Médio Oriente em ebulição e um inimigo forte à porta dos seus domínios ultramarinos.

Junte-se a isto uma série de pequenos conflitos locais que acenderam ainda mais as tensões entre as principais potências europeias:

* A guerra Ítalo-Turca entre 1911 e 1912 que terminou com a anexação da Líbia por parte dos italianos.

* As duas guerras do Balcãs em 1912 e 1913 que opuseram os países da Liga Balcânica à Turquia e à Albânia.

* O ultimato Austro-Húngaro à Sérvia para que esta retirasse do território albanês.

* Anexação da província turca da Trácia por parte da Grécia.

E, no entanto, no Verão de 1914, a Europa vivia um período de prosperidade. A interdependência económica revelava-se em todo o seu esplendor, uma espécie de primeira globalização ainda modesta e limitada a algumas áreas, mas incorporando as principais peças no tabuleiro de jogo das potências mundiais.

Capitais e mercadorias fluíam através da Europa e da América. Em 1893 o vapor ultrapassou definitivamente a vela como meio de locomoção nos mares.

Os acordos internacionais sucediam-se: a partilha de informações meteorológicas; a uniformização das dimensões das linhas de caminho de ferro; a divisão de frequências de rádio para a recém-descoberta telegrafia sem fios; os primeiros acordos sobre direitos de autor.

Também ao nível social as modificações assumiam grande relevância. Criaram-se movimentos internacionais com vista a regulamentar o número de horas de trabalho e o emprego de crianças.

Em 1864 surge em Londres a Primeira Internacional, em 1889 a Segunda Internacional, em Paris. Estas pressões dos movimentos de trabalhadores, que defendiam a união da classe acima dos sentimentos nacionalistas, levou mesmo a que alguns governos se antecipassem e abrissem o caminho a políticas de protecção da classe operária.

Outros dois exemplos da cooperação internacional nos anos que antecederam a Grande Guerra foram as Convenções de Geneva em 1863 e de Haia em 1893. Em ambas foram estabelecidas normas para regular o tratamento de prisioneiros de guerra, o uso de armamento químico e o estabelecimento de um tribunal arbitral para a resolução de conflitos entre nações. A maior parte destas resoluções destinadas ao esquecimento e abafadas pelo ruído das armas durante os anos que se seguiram.


Joncherry
Dia 2 de Agosto de 1914. O cabo Jules André Peugeot e outros quatro soldados do 44º Regimento de Infantaria encontram-se posicionados na aldeia de Joncherry, perto da quinta dos Docourt. Na estrada surge um grupo de cavaleiros. A forma dos capacetes não deixa dúvidas: são cavaleiros alemães que tinham atravessado a fronteira francesa e avançavam vindos da localidade vizinha de Faverois.

O cabo Peugeot tenta impedir o avanço dos alemães mas o comandante do destacamento galopa na sua direcção e dispara três tiros. Embora ferido, o francês devolve o fogo e abate o cavaleiro com um tiro no ventre.

Peugeot morre em frente à casa de Monsieur Docourt às 10.07h. O cavaleiro abatido era o Leutnant Camille Meyer, do 5º de Caçadores a Cavalo.

Os dois, tornam-se as primeiras vítimas de uma guerra que só seria declarada 48 horas mais tarde.


Um estranho Verão
O esquema de alianças europeias no início do século XX tentava cobrir diversos cenários e colocar as diversas potências ao abrigo dos ataques umas das outras:

* 1879 – Entente Cordiale (França, Grã-Bretanha e Rússia)

* 1881 – Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália)

O atentado de Sarajevo dá origem a um conjunto de movimentações diplomáticas que acabam por culminar no ínicio da guerra.

A 23 de Julho, após muitas hesitações, a Áustria entrega finalmente um ultimato ao governo sérvio. Entre os diversos pontos do documento estavam a exigência da dissolução de todas as organizações e actividades contra o império Austro-Húngaro e a criação de um inquérito judicial conjunto para encontrar e condenar os responsáveis pela morte de Franz Ferdinand.

Com apenas 48 horas para responder, a Sérvia treme e cede em quase tudo, excepto no que diz respeito ao inquérito conjunto. Mas o seu poderoso vizinho deseja a guerra. Os sérvios mobilizam o seu pequeno exército de apenas 16 divisões.

Com a garantia do apoio alemão em caso de ataque russo, o governo Austro-Húngaro declara guerra à Sérvia a 28 de Julho e inicia a mobilização. Um a um, lentamente, os restantes exércitos entram em movimento. Primeiro a Rússia, depois a Alemanha e logo a seguir a França. Ao mesmo tempo, as primeiras granadas caiem sobre Belgrado.

De todos os lados surgem apelos de última hora que tentam colocar um travão ao espírito belicoso que se apodera da Europa.

A 29 de Julho Nicolau II telegrafa a Willem II implorando-lhe que fizesse todos os possíveis para impedir a guerra. Nesse mesmo dia o kaiser, que dias antes apoiara entusiasticamente o avanço sobre a Sérvia, garante-lhe estar a fazer todos os possíveis para convencer os austríacos a negociar.

Dia 1 de Agosto, Jorge V de Inglaterra envia um telegrama ao seu primo Nicolau II da Rússia, pedindo que fosse criada uma hipótese de saída negociada. Tarde demais! Do lado do czar informam que o embaixador alemão acabou de entregar a declaração formal de guerra.

Se ao nível mais alto as hesitações e os equívocos se sucediam, nas ruas o clima era de entusiasmo e fervor patriótico. Manifestações populares de regozijo aconteceram em São Petersburgo, Viena, Berlim, Paris...

O império Austro-Húngaro, a Alemanha, a Sérvia, a Rússia e a França estão em guerra. A Grã-Bretanha tenta manter-se afastada. A Entente Cordiale com a França não a obriga a entrar no conflito, mas outro problema está prestes a juntar-se à confusão reinante na Europa.

A 2 de Agosto a Alemanha lança um ultimato à Bélgica exigindo livre passagem pelo seu território para invadir a França a partir do norte, evitando as fortificações na fronteira comum. Os belgas recusam a passagem de tropas pelo seu território invocando a sua neutralidade, consagrada no tratado de Londres de 1839. Os britânicos reagem e por sua vez enviam um ultimato a Berlim avisando-os de que a integridade territorial da Bélgica deve ser respeitada.

A 4 de Agosto, os alemães avançam pela Bélgica e a Grã-Bretanha vê-se finalmente arrastada para a guerra.

Um prisioneiro alemão auxilia um soldado britânico ferido,
a caminho do hospital de campanha perto de Bernafay Wood, após confrontos
em Bazentin Ridge a 19 de Julho de 1916, durante a Batalha do Somme.


Quatro anos depois...
Após quatro anos de conflito, a Europa está exangue.

O exército francês, cansado e desmoralizado após uma séries de batalhas que resultaram somente num número impensável de mortos e feridos, amotina-se.

Os ingleses começam a sentir dificuldades em arranjar reforços para compensar as perdas após os desastres no Somme e em Passchendaele.

A Rússia, a braços com uma violenta revolução, negociou uma paz separada e retirou-se da guerra em finais de 1917. 

A Alemanha pode finalmente concentrar-se numa só frente e lançar uma ofensiva para derrotar Britânicos e Franceses antes da chegada dos americanos em número suficiente para desequilibrar a balança.

A Kaiserschlacht começa na Primavera de 1918, com uma série de operações utilizando tácticas inovadoras de infiltração que confiam mais no elemento de surpresa do que em longas preparações com bombardeamentos prévios, como até aí tinha sido regra.

Os Aliados vacilam e os alemães conseguem o maior avanço de sempre na Frente Oeste desde o início da guerra de trincheiras. Em alguns pontos, as linhas movem-se 60kms, em direcção a Paris.

Foi nesta fase da guerra que o Corpo Expedicionário Português (CEP) se viu diante do rolo compressor da ofensiva alemã. Desgastado e desmoralizado pela falta de apoio de Lisboa, com falta de homens que compensassem as baixas e com uma escassez endémica de oficiais (grande parte foi de licença e não regressou) as tropas portuguesas recuaram em La Lys, tal como outras divisões britânicas.

Apesar das conquistas iniciais, o avanço alemão acabou por ser detido e os Aliados recuperaram a iniciativa.

Ao fim de três anos de sangrentas tentativas, os generais aliados conseguiram finalmente acertar com as técnicas correctas para romper a guerra de cerco das trincheiras.

O uso de carros de combate e aviões em número significativo e tácticas mais sofisticadas de infantaria e artilharia conjugou-se com a  chegada de um número cada vez maior de reforços dos Estados Unidos. Teve início a derradeira ofensiva da Grande Guerra.

A Alemanha esgotara as últimas forças. Sem homens e sem recursos, abandonada pelos austro-húngaros, búlgaros e turcos, o Reich entrou em convulsão, política e socialmente. O Kaiser é forçado a refugiar-se na Holanda quando a república é declarada. Um pedido formal de armistício é entregue aos Aliados.

O acordo é assinado numa carruagem de comboio, na floresta de Compiègne.

Às onze horas, do décimo primeiro dia, do décimo primeiro mês, as armas calam-se, por fim, dos campos barrentos da Flandres às montanhas junto à fronteira Suíça.

O Cenotaph em Whitehall, Novembro 2004. Foto de Chris Nyborg.


Poppy Day
O uso simbólico da papoila para homenagear os mortos na Primeira Guerra Mundial é um costume da Commonwealth Britânica que está ligado ao Remembrance Day, um feriado móvel que tem lugar no segundo domingo de Novembro, de forma a estar o mais próximo possível com o 11 de Novembro.

Em Portugal, o Dia do Armistício continua a ser comemorado, mas de forma discreta, quase envergonhada.

Continua a haver muita gente a confundir a memória dos que morreram com militarismo ou glorificação da guerra. Independentemente do que alguns sectores possam pensar, a essência de tudo isto é precisamente a oposta. É vital manter viva a memória destes acontecimentos de forma a evitar que se repitam.

A papoila foi escolhida como símbolo, não só por abundar nos campos da Flandres, mas sobretudo devido a um poema escrito pelo médico canadiano John McCrae:

In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.

We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie,
In Flanders fields.

Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A história dos EUA no Canal de História

Estreia a 15 de Outubro, no Canal de História. O trailer impressiona, resta saber se o conteúdo traz algo de novo. De qualquer forma, justifica o trabalho de programar a box para gravar.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

2 de Agosto de 1914

Joncherry

Dia 2 de Agosto de 1914. O cabo Jules André Peugeot e outros quatro soldados do 44º Regimento de Infantaria encontram-se posicionados na aldeia de Joncherry, perto da quinta dos Docourt. Na estrada surge um grupo de cavaleiros. A forma dos capacetes não deixa dúvidas: são cavaleiros alemães que tinham atravessado a fronteira francesa e avançavam vindos da localidade vizinha de Faverois.

O cabo Peugeot tenta impedir o avanço dos alemães, mas o comandante do destacamento galopa na sua direcção e dispara três tiros. Embora ferido, o francês devolve o fogo e abate o cavaleiro com um tiro no ventre.

Peugeot morre em frente à casa de Monsieur Docourt às 10.07h. O cavaleiro abatido era o Leutnant Camille Meyer, do 5º de Caçadores a Cavalo.

Os dois, tornam-se as primeiras vítimas de uma guerra que só seria declarada 48 horas mais tarde.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Histórias da carochinha

É saudável que não exista apenas uma versão da História. É positivo que se discutam ideias.

Por isso é bom ler este artigo do Público acerca de "A História de Portugal", de Rui Ramos e companhia.

Citação de Irene Flunser Pimentel (diz que é de esquerda): 
"Creio que, neste momento, os historiadores de esquerda, que sempre foram acusados de instrumentalizar, são mais cuidadosos a trabalhar e os de direita até fazem gala em provocar."

Rui Ramos, numa entrevista para a revista Ler, afirmou que era uma personalidade de direita e que gostava de provocar a esquerda.

Irene Pimentel responde bem ao afirmar que:
"Eu não faço História para chatear a direita. Eu sou de esquerda, mas, se quiser fazer política, faço-o no espaço político, não no espaço da História, mesmo sabendo que a minha ideologia está lá."
Rui Ramos diz que a história é toda revisionista, uma afirmação correcta na medida em que não é algo imutável - depende de fontes - nem consegue ser neutral - requer interpretações.

A conclusão de tudo isto é absurdamente banal. Existem bons e maus livros de história. Livros mais e menos "engagé". É necessário ler muito para criar uma imagem da história que nos seja própria. É preciso ter cuidado com os mitos que se criam e que, de tanto serem repetidos, passam a "facto histórico". 


Um exemplo que está fresco na minha memória: é relativamente fácil e pacífico dizer como ocorreu a revolução industrial na Inglaterra. As coisas ficam mais complexas quando, a partir daí, se interpretam resultados e se escolhem ângulos a abordar com mais pormenor. 

Exploração de uma nova classe social nascida a partir do êxodo para as cidades? Uma época terrível para a humanidade? Ou uma época de grandes avanços, o maior salto civilizacional desde o Neolítico? Melhoria geral das condições de vida, acesso a uma nova realidade? Ou raiz de duas guerras mundiais?


É tudo uma questão de pesos. De puxar mais ali e menos acolá.


Por tudo isto, faço tenção de ler a "História de Portugal" de Rui Ramos. Para comparar com outras obras que li antes. Para adicionar mais informação e aumentar o meu espírito crítico. Mesmo que, no final, venha a achar este novo livro uma gigantesca chachada. Mesmo que, no final, o considere desonesto e  uma tentativa de limpar os crimes e asneiras do Estado Novo.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Dia D - Faz amanhã 65 anos

O Antony Beevor escreve no The Guardian acerca do outro lado da libertação do continente.

Os excessos e as vinganças. O que acontece quando as sociedades são expostas à violência de forma continuada. Os limites vão todos porta fora.

O Beevor é do melhor que podem ler nesta área.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Duas boas maneiras de ensinar o 25 de Abril

a) A Visão desta semana foi censurada. Toda a revista - com excepção do suplemento Visão Sete - está pejada de traços de lápis azul e carimbos. Como no tempo da outra senhora. Para que vejam como era.

b) No Twitter estão a transmitir o 25 de Abril desde as 22h00 de hoje. Todos os acontecimentos ao minuto, em tempo real. Para que não se esqueçam. A falta de memória faz muito mal aos povos. No Twitter: @25Abril1974

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Não é por o repetirem que se torna verdade


Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se ao outro Marcelo, o Caetano dizendo que:

"Em termos gerais, era um homem excepcional. No quadro histórico em que viveu, não é fácil encontrar figuras com projecção e qualidades semelhantes."

Não é por o repetirem que se torna verdade. Marcelo Caetano falhou, perante o país e a história. É apenas uma nota de rodapé. O epílogo de um regime que perdeu todas as oportunidades de se regenerar e nunca deixou de ser - embora com métodos e contornos bem portugueses - uma ditadura.

Registo o facto de Marcelo Rebelo de Sousa admirar o sucessor de A. de O. Salazar. Registo, mas não lhe ligo nenhuma. Só é relevante nisto tudo a falta de pudor que transparece cada vez mais.

O saudosismo esteve sempre latente nas elites tradicionais. Durante anos mantiveram-se calados. Agora, começam a revelar-se. A cambada de chatos cinzentões que alimentou o corporativismo durante grande parte do século XX. O bando de situacionistas medrosos que nunca teve coragem para impor a Salazar um destino diferente para o país.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Ena mas c'a ganda descoberta arqueológica!

Desta vez é a sério. Parece fenomenal o aspecto do mosaico romano encontrado numa escavação perto de Alter do Chão, no distrito de Portalegre.

Pode parecer idiota mas fico mesmo feliz quando descobrem coisas destas.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A 11ª hora do 11º dia do 11º mês

Passchendaele
 
 
They ask me where I've been,
And what I've done and seen.
But what can I reply
Who know it wasn't I,
But someone just like me,
Who went across the sea
And with my head and hands
Killed men in foreign lands...
Though I must bear the blame,
Because he bore my name.
(Back, William Gibson)