sábado, 25 de junho de 2005

Jornalismo II

Três exemplos:

a) Manuela Moura Guedes parece ter ficado muito aborrecida quando o comentador de economia da TVI se atreveu a afirmar no meio de uma análise que nem tudo é mau e que é preciso ter esperança. Optimismo e Esperança são duas palavras proibidas no canal de Moniz excepto quando associadas a doente terminal, cadeirinha de rodas e intervenção cirúrgica.

b) A SIC Noticias, tal como os outros canais de televisão, faz todos os dias uma pequena mostra da imprensa escrita. Quando chega a altura do 24 Horas, com um misto de vergonha e desprezo, o pivot de serviço, limita-se a ler o título de primeira página em voz baixa e a passar rapidamente para o próximo jornal. Estranha atitude num canal que emite peças sobre um homem que faz colecção de tampinhas de plástico e as quer transformar em cadeiras de rodas...

c) Ainda a TVI. Num destes dias a Manelita apresentava com horror, pânico e a boca num esgar, uma peça sobre uma doença raríssima da qual sofrem 200 pessoas em todo o mundo. Ok, comparativamente a incidência em Portugal é muito grande (sete pessoas). Mas isso não a torna, felizmente, num caso que mereça notícia num jornal em prime-time. Ok, ok....já sei....escolhas editoriais.....bla bla bla.....tudo bem, mas continua a ser ridículo.

Jornalismo I

Já ando há algum tempo com vontade de escrever sobre jornalistas. Agora, duas coisas que me passaram pelos olhos recentemente, sem qualquer relação entre si, despertaram outra vez o tema.

A corrupção não nasceu ontem, mas parece que começou a aparecer mais nos últimos tempos, devido a factores que não consigo identificar mas que, espero eu, tenham a ver com uma maior maturidade da sociedade.

O que me irrita e preocupa é o facto de a classe jornalística reagir muito mal às críticas, como se fossem um bando de meninos mimados a quem não se pode apontar alguma falha ou algum podre. As reacções são típicas: vitimização, fortes batidelas no peito em defesa da liberdade de imprensa, má educação, acusações de manipulação, ironia e desinformação pura e simples. Ah, e claro que, por vezes, até têm razão, certo senhor Jardim?

O caso Independente/Tempo/Sócrates/Freeport é apenas um exemplo de uma manobra de desinformação que correu mal e caiu nas garras de um grupo concorrente. Ou seja, não há inocentes no meio desta trapalhada toda. O Independente já há muito tempo que não existe como jornal sério. Poderá ser mesmo considerado como menos sério do que o "24 Horas" e a revista "Tempo" nunca me inspirou muito a confiança. Sempre me pareceu ver em alguns artigos uma série de fretes mais ou menos bem escondidos.

Mas os tais "fretes" não se limitam a estes títulos. Estão um pouco por todo o lado com intensidades e graus de descaramento diferentes.

Apenas para dar um exemplo clássico: notícias de tom positivo que saiem com maior destaque num meio porque interessam a um dado grupo económico ou político e outras em tom negativo, que saiem noutro lado para descredibilizar a concorrência.

Sim porque existem fretes políticos e fretes económicos. Uma peça sobre cervejas na altura certa em que, não mencionando marcas se dá prefência a uma empresa em prejuízo da outra, ou uma novidade tecnológica de menor importância que dá direito a entrevista no telejornal e ao aparecimento mais ou menos dissimulado da marca em questão.

Ou o empresário sobre o qual correm rumores de dificuldades económicas que liga para o amigo no jornal e que concede uma entrevista em que diz o que quer sem oposição.

Os jornalistas são humanos como toda a gente e passíveis de serem influenciados, pressionados, subornados ou chantageados como qualquer outra pessoa. Mas eles acham que não. Ao não admitirem críticas, ao tornarem-se, por eles mesmos, salvadores de tudo e mais alguma coisa, transformam-se em mais um problema.

Por isso, não acreditem em tudo o que lêem, ouvem ou vêem. Infelizmente, na maior parte dos casos nada é como parece.

quarta-feira, 22 de junho de 2005

Rachmaninoffes para todos

Há uma confusão de pianos ao fundo da rua
por favor chamem a honesta polícia
há lutas de violoncelos em certas parte
nos bairros difíceis surgiram rixas entre gangues de saxofones e trompetes
tememos o pior
sinceramente


quinta-feira, 16 de junho de 2005

Masterpieces for shakuhachi

entra



espero não te arrependas mas entre aqui e daqui a bocado existe um brilho tão excitantemente belo que só pode ser preenchido por este som



um som contínuo

tão calmo que a respiração cessa

inconscientemente começas a sufocar

não sei mesmo se conseguirás

despertar



* o shakuhachi é uma flauta de bambú, utilizada na música clássica e tradicional japonesa.

Vamos a ver

Vamos a ver
somos todos assim
remediados
pobrezinhos
sem palavriado
ou manias de grandeza
ficamos a ver os outros
pelas grades dos jardins
a falar de modo estranho
com poses ensaiadas
ao longo de muito tempo
nas salinhas bafientas
do colégio privado
Vamos a ver
somos todos peixeiras
mulheres com varizes
e bicos-de-papagaio
acordamos cedo
arrastados vamos ganhar vez
para consultas da caixa
e exames com raio-x
e não podemos mudar
este estado de coisas
porque a vida é como é

terça-feira, 14 de junho de 2005

Vamos lá entender-nos

Quando caiem de sobretudo
em cima dos passos perdidos
a remela
ensebada
passa a estrela polar
e o remédio deixa de ser santo
para passar a placebo
longe de mim dizê-lo assim
mas as palavras são como as serpentinas
se as desenrolas sem nexo
um dia acabam por estrangular-te

Os riscos da navegação à vista

Saí cedo
meti-me à chuva
andei às voltas
abriguei-me nos taipais


de uma ponta à outra da cidade
 

procurei-te
inventei histórias
desculpas

de uma ponta à outra da cidade

procurei-te
sem sucesso

continua a chover
a água pinga-me nos olhos

deforma as imagens
e não te vejo
já não sei quem és
ao que cheiras
como sabes
no meio desta água toda
das ruas inundadas
no meio deste medo 

que tenho de me perder

Ao certo
sei que a busca não pode cessar
vou descansar apenas
até que a chuva pare

sábado, 11 de junho de 2005

Slow-mo

Surgiu nos Estados Unidos, um novo movimento de pessoas que pretende romper com o modo de vida quotidiano. Chama-se Slow-mo’s, palavra derivada do inglês “slow motion”, que significa “câmara lenta”.

Os Slow-mo’s são um grupo que vive de maneira diferente, a uma velocidade inferior da do resto da população. Falam mais devagar, andam lentamente em vez de correr, pretendem não ser escravos do relógio, recusam a comida rápida e o stress em todos os aspectos da sua existência.
Gritar no trânsito ou conduzir em excesso de velocidade são coisas que não passam pela cabeça dos adeptos deste estilo de vida, que surgiu em Nova Iorque em meados de 2003 e rapidamente se difundiu por outras partes dos Estados Unidos.

Nas palavras de Peter Earnhardt, um designer de 36 anos que vive em New Jersey e escolheu mudar radicalmente o modo como age no dia-a-dia , Slow-mo é mais um estilo de vida do que um movimento organizado: “não temos líderes nem estruturas organizadas. Existem alguns blogues, sítios na Internet e, apenas muito recentemente, um livro sobre a maneira Slow-mo de viver. Quem quiser mudar pode fazê-lo facilmente, é só organizar melhor as suas tarefas e querer alterar o modo como encara as coisas.”

Mas será assim tão simples alterar hábitos de anos? Fomos falar com Annette Jones, funcionária superiora num tribunal de Manhattan e considerada uma das “fundadoras” do movimento Slow-mo:

“Ser um Slow-mo é largar um estilo de vida que é agressivo, faz mal à saúde e afecta a nossa sociedade e trocá-lo por outro que nos defende mais e nos desgasta muito menos. A base de todas as ideias Slow-mo é de não nos deixarmos arrastar pelo meio envolvente, de criarmos um afastamento que nos permita agir como se estivéssemos noutra dimensão. Não se trata de arrastar a voz ou de imitar um astronauta a andar na lua mas apenas de estarmos sempre a controlar a situação.”

Os Slow-mo’s são ainda poucos mas garantem que os resultados do seu modo de vida já se fazem sentir. Menos despesas com a saúde, melhor desempenho no trabalho, promoções e aumentos, ambiente familiar mais estável são apenas alguns dos pontos salientados no site www.slow-mo.org e fazem com que cada vez mais pessoas olhem curiosas para este movo modo de encarar a vida.



* este texto é ficcional, qualquer semelhança com ideias ou acontecimentos da vida real é pura coincidência.

segunda-feira, 6 de junho de 2005

Letras juntinhas só por piada

o.m.sp.q.t.yy.v.tt.a

ft.d.ee.tnk.de.ol.grdq.g.r.t.bh.t.ssd.

De súbito esqueci-me

A tirania
um dia
cederá o lugar
a outra tirania
que apodrecerá
e cairá
e nesse lugar
nascerá
um nova tirania
que será
igual
à
tirania antecedente
que ironia.

Saúde Pública

Domingo.
Na porta

um bilhete que dizia:
coliformes fecais

mau dia para ir à praia

Colete retroreflector

Está por saber porque raio a Sonae decidiu chamar "colecte retroreflector" ao novo menino querido dos Portugueses.

Estranho também, é o facto de, num curto espaço de tempo, tanta gente ter decidido que o melhor lugar para guardar o tal colete era as costas do banco do carro. Acho que é a isto que se chama o "imaginário colectivo" ou talvez mesmo a "alma de um povo".


Não

Foi giro ver os Franciús a celebrar a vitória do "não" no referendo sobre a Constituição Europeia.

Não consigo entender como se celebra um não e que melhorias isso trará para a França mas foi divertido na mesma.


Nabos

A ex-presidente da Câmara de Felgueiras, a Fátinha dos Brasis, chamou-lhes nabos numa conversa telefónica que faz parte do processo no qual é acusada.

A conversa será apresentada pela defesa como prova da honestidade e franqueza da autarca.








Peúgas, gravatas e collants

Parece que a CGD, instituição que tem pergaminhos na arte de complicar acaba de lançar um programa para os seus empregados que visa controlar o modo como se vestem.

O tamanho das saias, a obrigação de usar collants, o comprimento das gravatas das peúgas e das calças, a maquilhagem como meio de poder vir a ter mais aumentos, nada escapou neste projecto.

Ai que vontade de rir. Ai que vontade incontrolável de rir.

Compostagem

A palavra pode muito bem estar certa, mas embirro com ela. "Postagem".

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Os Agarrados

Querido diário,

Tive muitas saudades tuas.

Venho hoje falar-te de umas pessoas a que chamo "os agarrados". Não, não são os senhores que andam por aí a fazer pela vida, a cravar moedinhas em troca de lugares nos parques de estacionamento e de uns valentes "destorça!! destorça!!".

Estes agarrados, normalmente não cheiram assim tão mal, têm excesso de peso em vez de parecerem comidos pelas carochas e não lidam com moedinhas. Aliás nem sequer têm porta-moedas porque isso é coisa de gente pobre. Estes, são figuras públicas, nacionais ou locais e, são agarrados ao poder. São viciados nas pequenas mordomias que a sua posição lhes oferece. O melhor lugar no restaurante, os flashes dos fotógrafos, as grandes entrevistas na televisão onde falam aquele estranho idioma dos "agarrados", o "Fala-Baratês" ou "Se-falares-mais-alto-do-que-os-outros-mesmo-que-só-estejas-a-dizer-baboseiras-consegues-
que-ninguém-te-faça-frentês". Este último, embora tenha um nome complicado, é na realidade fácil e consiste em criar um muro de ruído à nossa volta (também chamado de "Técnica Phil Spector") e impedir que os outros consigam construir frases com mais do que duas sílabas.


Os tempos têm sido maus para os "agarrados". Têm sido expulsos, corridos, saneados ou - prática comum no mundo dos "agarrados" - constituídos arguidos. Mas insistem em manter-se alapados aos seus lugares, recusando as demissões porque "quem não deve não teme", "só não sente quem não é filho de boa gente" ou "se eu saio daqui que porra é que vou fazer da minha vida?".

Vamos ver quantos se safam. Se forem muitos, isto anda de cavalo para burro. Se uns quantos cairem de vez, já valeu o esforço.

Fica bem querido diário. Espero poder voltar a falar contigo em breve.



quinta-feira, 28 de abril de 2005

Pintar

Deixa-me pintar o teu coração ferido
disfarçar as manchas e dores profundas
com pinceladas curtas deixa-me
ser suave e distraído.

deixa-me fazer suar na tua pele
um calor raivoso de cores quentes
e pelas linhas infinitas do teu corpo
criar todos os passos de um amor infiel.

da inconstância há que fazer nascer luz
que projecte uma tímida mistura de serenidade

e firmes declarações de incondicional afecto
para além da claridade simples destes corpos nús

sábado, 23 de abril de 2005

Hitler In My heart

Roubei o título de uma canção de Antony And The Johnsons para dar nome a este texto. Serve de introdução à defesa de uma ideia. De que a humanização de Adolf Hitler não é algo negativo e mau mas que, pelo contrário, contribui para nos manter alerta contra outros que possam tentar copiá-lo de um modo ou outro.

Hoje fui ver o filme Der Untergang, o tal de que tanto se fala. O tal com Bruno Ganz no papel de Adolf Hitler. O filme teve grande cobertura quer no Público, quer no Expresso, mais do que é normal e, ainda mais raro, com algum interesse. Há quem tenha gostado do filme e quem o tenha detestado. O que mais me incomodou na crítica de uma senhora que não gostou, foi o facto de ela, como outros por esse mundo fora, achar que é negativo mostrar Hitler como um ser humano, e que algumas pessoas podem ganhar alguma simpatia pelos personagens.

O filme não alterou em nada a minha visão sobre o assunto. É um filme seco, quer em termos de realização - não tem nenhuma cena grandiosa, não existem sequências de encher o olho - quer em termos de narrativa - muitos dos diálogos são reproduções do que já se sabia, contado a partir de fontes presenciais como Frau Junge, a secretária, e outros que acrescentaram fragmentos à descrição daqueles últimos dias do Terceiro Reich a partir de Berlim e do Bunker. Já se sabia o destino dos intervenientes e como tudo decorreu.

A força de Untergang, reside nesta secura, na simplicidade com que tudo nos é apresentado. O filme incomoda porque prova que tudo foi feito por pessoas e não por caricaturas estereotipadas, entidades maléficas possuídas por algum estranho mal. É precisamente esta "humanidade" que perturba e marca. A morte chega sem se fazer anunciar, sem trombetas ou rufar de tambores.

Executar alguém é simplesmente dar-lhe um tiro, a pessoa cai e acabou-se. Sem direito a banda sonora ou epílogo. A guerra é algo estranho e surreal, por vezes ridícula e sempre cega. O pior que se fez ao longo do tempo foi caracterizar os nazis como tipos muito maus, do género vilão dos westerns.

O ser humano carrega em si a violência, a crueldade, o horror. Existem muitos Hitlers em potência, nasce um todos os dias. Felizmente, as circunstâncias não permitem que eles surjam como tal. Pol Pot, Estaline, Mao e outros que tais, também deram rédea livre ao Hitler que tinham no coração. Também eles criaram uma aura de quase imortalidade, de infalibilidade, algo que durante anos lhes permitiu mandar matar e ter gente ao seu serviço que cumprisse essas ordens.

Muitos casos de crimes feitos com uma violência mórbida, sádica e doentia, foram cometidos por tipos com um ar comum, que falavam normalmente, nem sequer eram vegetarianos e não tinham um bigodinho aparado nas pontas. Eles tinham Hitler no coração.

Há muito quem pense que se deve esconder o nacional-socialismo, que não se falando de Hitler, de Goebbels, de Himmler ou de Bormann se evita que um mal semelhante volte a acontecer. A histeria é má conselheira. Se ninguém quer que um Holocausto se repita - e em Holocausto incluo também a morte de milhões de russos, japoneses, polacos, ingleses, franceses, italianos, belgas, holandeses, chineses e tantos outros afectados pela guerra - há que conhecer bem o mal que o causou.

Sim, Hitler era humano. Não sabiam?