espero não te arrependas mas entre aqui e daqui a bocado existe um brilho tão excitantemente belo que só pode ser preenchido por este som
um som contínuo
inconscientemente começas a sufocar
não sei mesmo se conseguirás
Este coiso aborda essencialmente nada em especial. É rigorosamente imprevisível. Inclui diversas referências ao nicles absoluto e contém níveis elevados de parvoíce. Em dias bons pode encontrar por aqui alguns textos medianamente interessantes sobre cinema, televisão, cultura popular e marketing.
O filme não alterou em nada a minha visão sobre o assunto. É um filme seco, quer em termos de realização - não tem nenhuma cena grandiosa, não existem sequências de encher o olho - quer em termos de narrativa - muitos dos diálogos são reproduções do que já se sabia, contado a partir de fontes presenciais como Frau Junge, a secretária, e outros que acrescentaram fragmentos à descrição daqueles últimos dias do Terceiro Reich a partir de Berlim e do Bunker. Já se sabia o destino dos intervenientes e como tudo decorreu.
A força de Untergang, reside nesta secura, na simplicidade com que tudo nos é apresentado. O filme incomoda porque prova que tudo foi feito por pessoas e não por caricaturas estereotipadas, entidades maléficas possuídas por algum estranho mal. É precisamente esta "humanidade" que perturba e marca. A morte chega sem se fazer anunciar, sem trombetas ou rufar de tambores.
Executar alguém é simplesmente dar-lhe um tiro, a pessoa cai e acabou-se. Sem direito a banda sonora ou epílogo. A guerra é algo estranho e surreal, por vezes ridícula e sempre cega. O pior que se fez ao longo do tempo foi caracterizar os nazis como tipos muito maus, do género vilão dos westerns.
O ser humano carrega em si a violência, a crueldade, o horror. Existem muitos Hitlers em potência, nasce um todos os dias. Felizmente, as circunstâncias não permitem que eles surjam como tal. Pol Pot, Estaline, Mao e outros que tais, também deram rédea livre ao Hitler que tinham no coração. Também eles criaram uma aura de quase imortalidade, de infalibilidade, algo que durante anos lhes permitiu mandar matar e ter gente ao seu serviço que cumprisse essas ordens.
Muitos casos de crimes feitos com uma violência mórbida, sádica e doentia, foram cometidos por tipos com um ar comum, que falavam normalmente, nem sequer eram vegetarianos e não tinham um bigodinho aparado nas pontas. Eles tinham Hitler no coração.
Há muito quem pense que se deve esconder o nacional-socialismo, que não se falando de Hitler, de Goebbels, de Himmler ou de Bormann se evita que um mal semelhante volte a acontecer. A histeria é má conselheira. Se ninguém quer que um Holocausto se repita - e em Holocausto incluo também a morte de milhões de russos, japoneses, polacos, ingleses, franceses, italianos, belgas, holandeses, chineses e tantos outros afectados pela guerra - há que conhecer bem o mal que o causou.
Sim, Hitler era humano. Não sabiam?