quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

Landscape

I like to take off my shoes the moment I get home. Then I sit on my couch, lie still with a bottle of mineral water in my hand - sparkling with a hint of lemon - watching the landscape around me.



quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

Impressões

A reacção do governo Português aos acontecimentos na Ásia foi lenta e desorganizada. Embaixadores em férias, técnicos que iam mas tardavam em chegar, etc.



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O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, apanhado em plena ressaca do Natal falou para a Antena 1 com voz arrastada. Teve falhas de memória – valeu-lhe o jornalista de serviço que lá lhe lembrou que faltavam as Maldivas – e passou certidões de óbito aos desaparecidos – “que é como quem diz, mortos”. Infelizmente, os ditos cujos, recusaram-se a morrer e, chatice das chatices, logo no dia a seguir começaram a aparecer.



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A dona Dulce foi de férias para a Tailândia no dia a seguir aos maremotos (sim, existe uma palavra portuguesa para designar “tsunami”) e o senhor Gama, mais a sua filha que diz “pa” em vez de “para”, mostrou a sua sabedoria ao declarar ter “lido na história” o que eram os tais de “tsunamis” e sabendo logo dizer a toda à prole o que se passava, do alto do segundo andar do hotel de segunda categoria onde estavam instalados, com vista para uma nesga de praia.



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Dias depois o senhor Gama teve o seu momento de glória ao aparecer, inchado e mal contendo o orgulho, no Jornal da Noite da TVI, para comentar o seu filme, feito do tal segundo andar do tal hotel de segunda categoria em Phuket.



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Ficou provado que os turistas mais irritantes e possidónios do mundo são os russos logo seguidos dos portugueses. Coisas de novos ricos…não?



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Um coordenador de voluntários Britânico apareceu na Sky News, agradeceu o apoio de todos, o modo maravilhoso como o Governo Tailandês estava a lidar com a situação trágica em que o país estava e recusou queixar-se. Embora tudo no seu olhar dissesse que não dormia há uma série de dias, embora o desespero e o choque de ter de lidar com cadáveres em decomposição num cenário devastado, lhe perdoasse qualquer fraqueza ou lamúria. Apenas pediu polidamente ao Governo que fosse ainda um pouco mais maravilhoso e que enviasse alguém para os render. Disse ainda, que os voluntários estavam dispostos a continuar até que aparecesse o exército Tailandês, ou alguém mais habilitado, para os substituir. Só quando a jornalista lhe disse que ele parecia exausto é que o homem acabou por confessar, meio envergonhado, que sim, que estava perto do limite.



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A corrida das doações já começou. Os Estados Unidos tomaram a dianteira, a França sentiu-se ofendida e reagiu logo depois, com o Japão, a Alemanha e a Grã-Bretanha em plena recuperação. Quanto deste dinheiro anunciado irá realmente chegar a provocar algum efeito? Na feira das consciências sujas o arraial ainda agora começou.



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Penso que já todos repararam no facto de que esta catástrofe foi bem ao gosto dos defensores da globalização. Morreram uma data de sub-desenvolvidos juntamente com uns quantos turistas desenvolvidos. Foi a sorte dos pobrezinhos. As televisões estão lá todas, pelo menos enquanto houver uma história comovente para servir no prime-time desenvolvido do hemisfério norte ou um novo vídeo amador para mostrar. Todos se acotovelam para ajudar, contribuir, doar.



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Bom Ano Novo!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

És um Vendido

Um grupo de amigos - malta dura e rija, bando de extremistas perigosos - disse-me no outro dia, ainda sob o efeito da ressaca nataleira:


"Tu estás a ficar comercial."


Assim. Sem mais nem menos. Como se eu fosse uma banda de rock industrial de repente rendida ao malhão e ao corridinho.


Impedido de responder, com a boca a transbordar de uma tosta mista (sem manteiga sáxavôr) só consegui dizer:


"uh?"


"Sim. É só textos parvos, escritos para toda a gente perceber. Estás a perder o toque."


"O toque rectal?" - disse eu indignado, porque se há coisa que não me podem tirar é a minha visital anual ao médico que me enfia um dedito enluvado pelo rabiosque acima.


"Já não te reconhecemos. Estamos a poderar seriamente deixarmos de ser teus amigos. Sabes, não nos podemos dar com gente que escreve assim. É mau para a nossa reputação."


Eu não tinha ideia alguma de que eles pudessem ter reputação ou coisa que o valha. Eles sempre me pareceram muito esquisitos, gente que não se leva a casa ou se apresenta à família. Aliás, as próprias familias sempre tiveram a mesma opinião e no Natal fecham-nos no quarto das arrumações ou vão para longe sem lhes dizerem nada.


Fui-me embora a matutar no que eles haviam dito. Será verdade? Estou preocupado.

sábado, 25 de dezembro de 2004

A Grande Água

Longe.

Lá.

Mal vejo.

Dos montes.

Para além da grande água.

Como um quadro.

Ao fim do dia.

As cores.

Tão belo.

Único.



Gone. Good. Relieved.

Já comprei a minha t-shirt oficial: "Eu sobrevivi ao Natal de 2004", para juntar às outras 36 que tenho lá no armário.



Uf...



segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

A praga dos chapéus

Vou deixar de usar chapéu.



Adeus.

Islândia

Algumas das melhores ideias aparecem do nada, no meio de uma conversa.

Neste caso são duas ideias e ambas têm a ver com a Islandia.

1. A Invasão

Estavamos no outro dia a falar de cinema quando veio à baila um filme Islandês chamado "Noi Albinoi". A história de um menino a quem a mãe oferece um "View Master" com imagens do Taiti. O petiz entra em depressão profunda, olha à volta e só vê lava e neve e acaba por morrer.

Isto é brilhante. Portugal não consegue invadir nada de jeito há muito tempo, certo?

A Islândia é um alvo fácil. Bastava lançar de avião uns quantos "view master" com as tais imagens do Taiti, esperar uns dias que os nativos ficassem bem deprimidos e depois era só mandar a tropa limpar o terreno dos pobres Islandeses que certamente nos implorariam que puséssemos fim à sua miserável existência.

Limpa a Islândia de todos os Islandeses, poderíamos assim cumprir os três objectivos que nos levaram à invasão - assegurar uma reserva permanente de bacalhau, criar uma colónia penal de jeito e aumentar o consumo de sopa por parte das crianças pela utilização frequente da expressão: se não comes a sopinha toda vais para a Islândia ter com o Bibi e o Pinto da Costa.

A pedido de alguns chatos do Clube de Todo-o-Terreno da Bobadela, informo que também poderiam usar a ilha para andar aos saltos nos vossos carritos. E sim, antes que perguntem, poderiam ainda servir-se livremente dos presos como pinos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

Manter a fé

Ao solene inicio das tormentas, responde o cardeal com sabedoria.
"Calma" - diz ele erguendo as mãos sapudas.
"O povo de Deus aguarda uma palavra" - entoa o sabujo igrejeiro.

Esperando estamos todos em silêncio ó excelso representante do representante de Deus na Terra. Porque o crente é bem comportado.

"Há que manter a calma" - junta ele desafinando sem vergonha nas notas altas.
Os crentes reunidos olharam para o céu, esperando alguma manifestação divino-meteorológica que lhes aliviasse o medo.

o Divino não se manifesta e a tormenta aumenta. A eminência sua por debaixo das vestes abençoadas.

Já chove faz mais de cinco horas e os mui molhados fieis estão bastante abanados na sua fé.

Lá bem ao fundo, lá atrás na multidão, uma voz diz:
- Vou pra casa.

Foi ele o primeiro excomungado. O Cardeal não perdoa traições. Não gosta de fracos, de gente que não se revê num sacrifício comum. Pessoas de pouca fé.

Sobre

A tua sede tem um som sinistro
talvez a culpa seja das noites sem sono
da certeza do que com medo adivinhaste.
Das abertas no teu rosto vejo a minha sombra
refrescando montes e prados
cercando a tua imensa vontade de tudo abandonar
de deixares as varzeas e penedos
ao vento gelado dos Outonos cinzentos.
Num rochedo isolado usarás o cinzel e esculpirás
num golpe único, seco e amedrontado
o teu riso num esgar, a tua melancolia num grito
farás com as mãos o sinal da cruz
e pairando no céu meditarás
liberta das santas agonias a que te obrigaste.

terça-feira, 14 de dezembro de 2004

Mensagens de Natal

Passei o fim de semana a cantarolar uma pequenina canção, inventada por mim. Nessa canção um personagem imaginário expressa o seu desejo de sodomizar o Pai Natal várias vezes.
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Quando eu era pequeno e acreditava, era o menino Jesus que trazia as prendas. Bem mais simpático e terno ser uma criancinha em fraldas a oferecer-nos brinquedos, do que um velho com graves problemas de obesidade, a barba e o cabelo por cortar e vestido da cor normalmente associada a prostíbulos e rameiras.
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A minha casa é ZLN. Zona Livre de Natal. Nada nela indica que estamos em Dezembro. E assim será até ao dia de Reis. Após o dia de Reis, sou capaz de pendurar uma bola de Natal na maçaneta da porta de entrada para assinalar o fim de mais uma quadra Nataleira.
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Era suposto o Natal ser uma época cheia de um ror de coisas assim tipo paz, harmonia, amor, etc. etc. . Na realidade não é nada disso. As pessoas andam prestes a transformarem-se em Lee Harvey Oswalds e o ambiente na cidade fica assim do género Jonestown em manhã de suicídio colectivo.
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Além disso gasta-se imenso dinheiro em coisas inúteis para pessoas de que nem sequer gostamos muito.
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O que eu queria mesmo, era passar a noite de Natal em casa, a ver DVD's, a ler, deitar-me às 11 e meia e acordar no dia 25 com ar aliviado.
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A minha noite de Natal ideal era jantar com as pessoas de quem gosto e à meia-noite todas dizerem umas às outras o quanto precisavam e gostavam umas das outras.
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Está bem...é uma piroseira nada condizente com o tom geral destas mensagens mas enfim...já tenho idade suficiente para não acreditar no Pai Natal e idade suficiente para escrever coisas assim sem receio do que os outros possam pensar.


terça-feira, 16 de novembro de 2004

Natalices..primeira parte

Atenção:

Se você, ou alguém da sua família, sofre de epilepsia, aconselho que evite a Baixa de Lisboa durante o Natal.



A CML decidiu instalar um jogo de luzes na praça do Rossio que tem um lindo efeito estroboscópico, suficiente para deixar um tipo zonzo e transformar a presença no local por mais de dois minutos num pesadelo insuportável.



Obrigado CML por nos lembrares ainda mais quão insuportável é esta quadra nataleira.



(To be continued)

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Noite

Por entre silêncios
a esguia e suave forma de um semáforo
rasteja pelas zonas escuras da avenida
e muda de cor a cada minuto.
 
Por entre o amarelo-pálido das ruas
pelo pavimento molhado e escorregadio
corre a água que se esconde nas sarjetas
com vergonha do lixo que carrega.

Estão tristes os néons
os jardins avisam dos perigos que neles vivem
e irradiam um cheiro escuro a medo.

Das fontes cresce um verdete alienígena
que cria graciosas mutações nos raros transeuntes
gente que arrasta sacos de plástico, copos de cartão
e vinho tinto em pacotes Tetra Pak.

Por todo a parte joga-se solitário
com baralhos incompletos e lágrimas ansiosas
em amargas sucessões de suspiros bafientos
reclama-se em igual medida o amor e o desespero.

Se alguém encontrar a dama de copas
essa vadia de vestido de mau corte
digam-lhe que o valete de espadas ainda espera por ela
todas as noites, no sitio do costume.

quinta-feira, 11 de novembro de 2004

O Homem Que Morreu Devagar

Yasser Arafat bateu o recorde mundial de ressurreições mas acabou por quinar à quinta tentativa.

Numa semana em que enganou os médicos quatro vezes, obrigando-os a estragar uma data de certidões de óbito e pregou um enorme susto a uma enfermeira, fazendo-se de morto e depois gritando "Cu-cu...tou aqui". Depois de o fígado, os pulmões, o baço, os intestinos, o coração, o cérebro, o estômago, a bexiga e o telemóvel de Arafat, terem deixado de funcionar, os médicos anunciaram por fim: "temos a impressão que o homem está morto".

Vamos todos sentir a falta do velho terrorista.

Neste momento gostaria de relembrar algo que lí algures. Israel conquistou o direito a existir através de acções terroristas. E, ainda hoje, o terrorismo é uma arma utilizada pelo estado Israelista.

Tenham um bom resto de dia. Comam kosher e halal. Mastiguem bem.

terça-feira, 9 de novembro de 2004

Política - Riding the Hot Potatoe

É impressão minha ou vou tornar-me mais um membro da classe média que irá ter menos dinheiro no ano que vem?

Apetece-me ir para a rua insultar o homem que colocaram à frente do governo. E o ministro das Finanças de ar sinistro. E os outros incompetentes todos.

Quando se pensava que não era possível um governo pior do que o de Guterres somos supreendidos por isto.

O mais desesperante é ver que, na política cá do burgo, não existem pessoas competentes. Apenas tipos que fizeram carreira na política e que consideram o PSD ou o PS ou outros que tais, mais importantes do que o país. Pior ainda, consideram-se mais importantes do que o partido a que pertencem ou o país de que são cidadãos.

As cabeças que sabem pensar são cada vez menos e têm cada vez menos voz, por opção própria porque se fartaram de pregar em vão, ou porque alguém se encarrega de os calar, usando métodos mais ou menos discretos.

Confesso que deixei de ver televisão e de ler jornais. Conheço-os por dentro o suficiente para saber que não são de fiar, que os jornalistas são quase todos incompetentes, mal formados e culturalmente fracos, que têm medo de perder o emprego ou pretendem subir à custa de servicinhos a este ou aquele partido ou empresa.

Às vezes tento ler nas entrelinhas. Em algumas ocasiões compreendo o que se está a passar. E assusto-me. Ou enojo-me.

Estes são tempos difíceis. E, como em todas estas ocasiões, as coisas irão piorar antes de melhorar.

Pensem pelas vossas cabeças. E vão comendo as frutas e os legumes.

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

Equuopolis

Nunca tinha posto os pés numa feira de cavalos. A Golegã foi a minha estreia. Fiquei surpreendido com o ambiente.

Antes de mais gostava de vos falar do cheiro. Um feira com cavalos, burros, póneis e outros animais de duas patas que se alimentam de mines e tremoços, cheira muito mal. E, claro, existem bostas por toda a parte. Desde a visita às zonas rurais da Irlanda que não via tanto dejecto animal concentrado numa área tão pequena.

Mas, mais interessante do que os cavalos, são os visitantes. De repente, ao sair do carro, senti-me deslocado. E ainda bem. A quantidade de gente enfeitada de chapéuzinhos com penas, botas de montar, patilhame a dar pelo pescoço, samarras, bonés aos quadrados e casaquinhos de tweed, era assustadora. Aparentemente, é fino gostar de cavalos e mostrar o melhor ar rural, indo passear o todo-o-terreno ou o SUV para a feira.

Os cavalos até eram giros. O mesmo não se pode dizer dos anormais que insistiam em tirar fotografias apontando os flashes para os olhos dos animais que de certeza se sentiram tão incomodados e zonzos como a Leticia Ortiz no dia em que decidiu sair à rua em roupão para comprar meia dúzia de papo-secos e o jornal.

Conclusão, para a próxima vou a uma feira mais calma....de produtos hortícolas e assim...

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

Adeus Cupido

Subitamente
inesperadamente
numa noite de ar suado
arrotado
usado
temente aos deuses
ficarás
em letras bem pequenas
para sempre
imóvel
discreto
repetitivo
e chato

este é o meu desejo
discretamente sussurrado
para que não ouças
desaparecendo
irei no fundo da rua
viro e não me verás
ninguém te verá
ignorado
desprezado
mudo
preso
esse é o teu destino

divindade
grande chato

Corrente de Ar

Doce

Hálito

Rever

Olhar

Beijar



Foi tão difícil resistir

ao ar que saía da tua boca



Mais do que as acções

serei capaz de alimentar o amor

com poemas?



O amor sâo poemas reciclados



os poemas alimentam o amor

o amor alimenta os poemas



simples não é?

Joshua Big Tree e o Rabino Sioux

Como imaginava. O rabino ficou fulo. Dei as moedas todas ao taxista que, com um ar seboso-e-grunho me disse cuspindo bocados de sande-de-couratos-fora-de-prazo: "Ó chefe, tou sem trocos...comecei agora...". Consegui palmar algumas ao primo do rabino, o Ezequiel Gamo Dourado, um tipo fixe apesar dos 120 quilos de peso bruto que desloca, sempre pronto a ajudar um pobre judeu-nativo-americano em dificuldades. Juntei-as às moedas do peditório do Sabbath passado e lá paguei a corrida ao homem grunho-e-seboso. As rugas na cara do rabino ficaram ainda mais vincadas, transformaram-se em cicatrizes, tal a fúria que sentia, as mãos cerradas ficaram brancas, sem pinga de sangue, até que por fim disse numa voz surpreendentemente calma: Meu filho, conto contigo esta tarde, para me ajudares a separar a roupa para os pobres.

Bolas! Antes uma paulada no meio das costas ou uma maldição da Cabala Cheyenne, a mais cruel de entre todas as Cabalas das tribos judaicas-nativo-americanas.Lá se foi o meu jogo de de râguebi contra os Metodistas da Micronésia!

domingo, 31 de outubro de 2004

Tormenta

Deixei os sorvetes trocados por dinares em cima de um cemitério índio algures, longe das tíbias e dos perónios.

Soletrei tabuletas que indicavam restaurantes fechados e ventos cruzados que nos secavam a boca e dinamitavam os olhos.

Vi, de revés, uma folha seca de papel timbrado com um memorando sobre a tristeza.

Chorei o que tinha a chorar à sombra de um cacto apodrecido e continuei a sujar os sapatos na poeira fina do caminho.

Tive saudades dos girassois e das massarocas, das danças regionais em trajes coloridos. Senti muito a falta de um cachecol às riscas.

Aqui, o tempo não passa. Nunca esteve por estes lados.

Aqui, nunca ninguém esteve atrasado ou perdeu um comboio ou uma camioneta.

Aqui, podemos sentar-nos e cantarolar uma canção sem parar durante dias.

Uma canção que diz:


Não temos tempo
Não temos tempo
O nosso tempo fugiu
Faz muito, muito tempo

Não temos tempo
Não temos tempo
O nosso tempo fugiu
Faz muito, muito tempo

Não temos tempo
Não temos tempo
O nosso tempo fugiu
Faz muito, muito tempo

sábado, 30 de outubro de 2004

Lidl

Olá leitores.



Ontem entrei pela primeira vez num supermercado Lidl. A experiência foi muito enriquecedora e forneceu-me tema para escrever durante horas. Como isso me iria fazer imensas dores de costas vou resumir o que aprendi em apenas algumas linhas.



Primeiro que tudo, quero deixar claro a todos que irão ler uma série de opiniões que mandam o politicamente correcto às urtigas e que podem parecer snobs e fascistóides. Quero confirmar que sim, que essas assunções são correctas.



Terminada esta pequena introdução, necessária para os menos avisados, vamos ao que interessa:



Entrar num Lidl é como passar para uma outra dimensão.



Claramente o Lidl é uma rede de supermercados terceiro mundistas, cujo público alvo são pessoas com baixos rendimentos. Se quer ter um ideia aproximada de como será ir à compras na Moldávia este é o sítio certo para si.





Como é que me oriento dentro de um Lidl?



O aspecto é asqueroso, a disposição dos produtos é mais que básica e não existem empregados de limpeza, por isso, se alguém entornar um frasco de azeite, o mais certo será os clientes passarem o resto do dia a praticar patinagem artística e, com um pouco de sorte, algumas velhinhas partirão as ancas e um bando de criancinhas ranhosas darão cabo das cremalheiras de encontro a uma palette de óleo Fula.

Os produtos não estão expostos, mas sim abandonados em cima das palettes ainda dentro das caixas, por isso é aconselhável levar um x-acto para poder esgravatar convenientemente.



Porque é que os produtos no Lidl são mais baratos?

Existem no Lidl produtos que não é possivel adquirir em mais nenhum lado. Marcas completamente desconhecidas, que nunca gastaram um cêntimo em publicidade e que acham que tal é absolutamente desnecessário já que quem compra os seus produtos não tem escolha porque ganha muito mal. E estão certos.

O número de empregados é mínimo, deve ganhar miserávelmente e a sua formação consistiu em cinco segundos de explicação sobre como vestir a bata, e passar os códigos de barras pela registadora. Serviço ao cliente é coisa que nem convém mencionar sob pena de ser linchado pela multidão.





Como devo ir vestido para o Lidl?

As pessoas que frequentam o Lidl têm muito mau aspecto e a maior parte delas cheira um bocado mal. Por isso aconselha-se o abandono dos hábitos de higiene durante os 3 dias anteriores às compras e a usar apenas roupas compradas em bazares chineses e em lojas com nomes caracteristicos como "O Rei Da Peúga Branca" ou "Boutique da Mariazinha". Caso estejam desesperados existe uma loja no Outlet do Montijo Fórum que só vende roupa foleira.

Uma observação final neste ponto para as batas que os empregados usam: são feias e geralmente têm um ar imundo. Isto tem uma razão de ser, os empregados não podem nunca parecer mais bem vestidos do que os clientes porque estes últimos podiam levar a mal.



Posso levar o carro para o Lidl?



Claro que sim! Mas tenha em atenção algumas regras básicas. Tentar passar à frente para conseguir aquele lugarzinho especial 25 centímentro mais perto da entrada é um must. Estacionar à porta e bloquear a saída é bastante comum e até aonselhável como método eficaz para fazer novas amizades. Deixar o carrinho das compras no meio do caminho é também uma marca registada dos clientes Lidl. Ah, aproveito para dizer que os carrinhos têm um aspecto semelhante a um Trabant depois de ter passado uma semana à chuva.



Afinal, compensa ir ao Lidl?



Sim, claro. Tudo é mais barato do que em Havana, e devo confessar que os gelados até são bons. Se você gosta de um sabor ao país real, de se misturar com minorias étnicas e sentir um pouco do que é viver com 80 contos por mês e ter 9 filhos, então este é o local certo para si.



Existem viagens organizadas?



Não. Recomenda-se que tenha o seu boletim de vacinas em dia e que evite os produtos não embalados. Seja amável com os nativos e respeite as suas maneiras e costumes.