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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Os Estados Unidos libertam documentação sobre redes de espiões durante a Segunda Guerra Mundial

Duzentas e dezasseis caixas. Setecentas e cinquenta mil páginas. Fotografias, manuais, propaganda e listas de empregados.

Foi este o espólio do Office Of Strategic Services (OSS) que hoje passou para o Arquivo Nacional norte-americano.

O OSS, foi a primeira agência central de espionagem dos Estados Unidos e a antepassada da bem mais conhecida CIA.

terça-feira, 1 de julho de 2008

O Hino Espanhol


Algumas pessoas ficaram admiradas com o facto de o hino espanhol não ter letra. É chato porque enquanto as claques de outros países berram o hino a plenos pulmões, os espanhóis estão de boca fechada - possivelmente uma das raras ocasiões em que isso acontece.

Na realidade, o hino nacional de Espanha já teve letra por duas vezes. Uma durante o reinado de Afonso XIII e outra durante o regime franquista entre 1939 e 1978.

Versão Afonso XIII
Gloria, gloria, corona de la Patria,
soberana luz
que es oro en tu Pendón.

Vida, vida, futuro de la Patria,
que en tus ojos es
abierto corazón.

Púrpura y oro: bandera inmortal;
en tus colores, juntas, carne y alma están.

Púrpura y oro: querer y lograr;
Tú eres, bandera, el signo del humano afán.

Gloria, gloria, corona de la Patria,
soberana luz
que es oro en tu Pendón.

Púrpura y oro: bandera inmortal;
en tus colores, juntas, carne y alma están.


Versão Franco

Viva España, alzad los brazos, hijos
del pueblo español,
que vuelve a resurgir.

Gloria a la Patria que supo seguir,
sobre el azul del mar el caminar del sol.

Gloria a la Patria que supo seguir,
sobre el azul del mar el caminar del sol.

¡Triunfa España! Los yunques y las ruedas
cantan al compás
del himno de la fe.

¡Triunfa España! Los yunques y las ruedas
cantan al compás
del himno de la fe.

Juntos con ellos cantemos de pie
la vida nueva y fuerte del trabajo y paz.

Juntos con ellos cantemos de pie
la vida nueva y fuerte del trabajo y paz.

Viva España, alzad los brazos, hijos
del pueblo español,
que vuelve a resurgir.

Viva España, alzad los brazos, hijos
del pueblo español,
que vuelve a resurgir.

Gloria a la Patria que supo seguir,
sobre el azul del mar el caminar del sol.

Gloria a la Patria que supo seguir,
sobre el azul del mar el caminar del sol.


Após a morte de Franco, o hino regressou à sua forma original, só com música.

A "Marcha Real" - é esse o nome do hino - foi publicada pela primeira vez em 1761 com o título "Marcha dos Granadeiros". Assumiu a designação actual e o estatuto de hino espanhol a partir de 1770.

Durante os anos da republica, entre 1931 e 1939, o governo substituiu a "Marcha Real" pelo "Himno de Riego" como hino nacional de Espanha:

Serenos y alegres, valientes y osados,
Cantemos, soldados, el himno a la lid.
De nuestros acentos el orbe se admire
Y en nosotros mire los hijos del Cid.

Soldados, la patria nos llama a la lid.
Juremos por ella vencer o morir.

El mundo vio nunca, más noble osadía,
Ni vio nunca un día más grande el valor,
Que aquel, inflamados, nos vimos del fuego,
Excitar a Riego de Patria el amor.

Soldados, la patria nos llama a la lid.
Juremos por ella vencer o morir.

La trompa guerrera sus ecos al viento,
Horror al sediento, ya ruge el cañón.
A Marte sañudo la audacia provoca
Y el ingenio invoca de nuestra nación.

Soldados, la patria nos llama a la lid.
Juremos por ella vencer o morir.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Respeito

Ainda a propósito do 25 de Abril e da nossa história recente, fica aqui a ideia de que Portugal honra pouco os ex-combatentes, aqueles a que os anglo-saxónicos - nisto muito mais sentimentalistas que nós - chamam veteranos. Pode pensar-se, como eu penso, que era errado travar a guerra nas colónias. Mas temos a obrigação de honrar, proteger e até mimar aqueles que para lá foram. Os que morreram e os que voltaram, ilesos ou mutilados. Não só por respeito e justiça para com esses homens (e algumas mulheres), mas também para garantir o respeito a Portugal como nação. Porque um país que não cuida de quem por ele lutou perde muita da razão de existir.

Este blogue não podia ser mais a favor do 25 de Abril

Primeiro: a crónica desta semana do Ricardo Araújo Pereira na Visão está muito boa. Eu próprio, se fosse ele, não teria escrito melhor.

Segundo: amanhã é o dia 25 de Abril.

Na data de hoje, há 34 anos, era 24 de Abril de 1974 e se existissem blogues nessa altura, o mais certo era andar um coronel reformado de ar caquético com um lápis vermelho (ou uma aplicação tipo twitter versão censura) a cortar quase tudo o que eu escrevesse. Isto se tivesse tido a sorte de passar ileso pelos meus dois anos de serviço militar.

Há 34 anos, se existissem blogues, seriam quase todos mantidos por homens e em muito menor número, dado o elevado nível de analfabetismo, porque as mulheres pouca opinião tinham e porque muito menos gente teria acesso à Internet do que hoje.

Na data de hoje, 34 anos atrás, houvessem blogues naquele tempo, Marcelo Caetano provavelmente teria o seu e chamar-se-ia "Conversas em Família".

Alguns dos blogues mais lidos, embora em segredo, seriam aqueles escritos por membros da oposição exilados no estrangeiro. Cunhal e Soares teriam cada um o seu, com nomes que poderiam muito bem ser "Até Breve Camaradas" e "O Florir das Rosas".

E haveria o blogue secreto de um jovem oficial, que fugindo ao controlo da PIDE, escreveria de África sobre o mal que era a guerra colonial.

Por tudo isso não me lixem. Precisamos de símbolos para continuar a acreditar.

25 de Abril sempre.

sábado, 12 de abril de 2008

La Lys

Ontem foi o aniversário da Batalha de La Lys.

A editora A Esfera dos Livros fez coincidir o lançamento de "Das Trincheiras Com Saudade", de Isabel Pestana Marques, com a efeméride. O jornal "Público", a propósito de ambos, incluiu este artigo na edição de ontem.

Ainda não li o livro, por isso sobre ele não vou abrir a boca.

Quanto ao artigo, ficaram-me algumas dúvidas. Fiquei surpreendido com umas quantas afirmações. O erro de lhe chamar "batalha de Las Lys" fez-me rir.



Aviso: A partir de agora isto só interessa mesmo a que goste de história. Não fala de mulheres nuas nem de futebol e não tem piadas. A sério, não tem.


[Citações do artigo do jornal "Público" assinaladas a bold e em itálico]


"Na historiografia europeia (...) a batalha de Las [sic] Lys nem sequer existiu."

Falso. Nem é preciso levantar o rabo da cadeira para ver a quantidade de referências à batalha na Internet. Em inglês e em francês. Possivelmente o jornalista não terá encontrado nada porque pesquisou por "Las Lys". Também poderia ter procurado por "4ª Batalha de Ypres" ou "Batalha de Estaires" designações pelas quais também é conhecida.

A designação "Batalha de Armentiéres" é menos correcta. Embora o sector seja idêntico, refere-se a uma batalha de 1914, no início da guerra, pertencente a uma fase a que mais tarde foi dado o nome de "corrida para o mar" e que levou à imobilização da guerra das trincheiras.

A batalha de La Lys foi travada como consequência do ataque com o nome de código "Georgette", que por sua vez derivou de um plano mais ambicioso chamado "George", englobado na última ofensiva alemã chamada "Kaiserschlacht".


"Do primeiro ao último momento deste período, a aventura portuguesa na guerra europeia não passou de uma série de mal-entendidos e de mitos colocados ao serviço de objectivos pouco confessáveis."

Os mitos são obviamente posteriores aos acontecimentos. É um facto que o governo da Primeira República tinha interesses egoístas na intervenção portuguesa mas o papel que esta teria na conservação das colónias africanas não é de todo um mito. Sabia-se por cá que existiria um acordo entre a Grã-Bretanha e a Alemanha para repartirem Angola e Moçambique. Tal acordo dataria de 1898 e foi reavivado em 1911. Apesar de negado por ambas potências, este facto não deixou de se juntar às razões para a nossa entrada na guerra.

Mais, não foi Portugal que entrou na guerra. É verdade que, de início, os britânicos recusaram o alinhamento nacional com os aliados mas com o passar do tempo acabaram por nos pressionar para que arrestássemos os navios Alemães ancorados em Lisboa. Tal acto levou a Alemanha a declarar guerra a Portugal.


"Chegados ao seu destino, tiveram de caminhar cerca de 30 kms, carregados com todo o equipamento de campanha, até aos seus locais de acantonamento."

E? Onde é que está o problema nisto? A guerra teve lugar entre 1914 e 1918. A mecanização dos exércitos só teve lugar de modo relevante durante a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, era perfeitamente normal marchar 30 kms, embora tenha encontrado algumas fontes que referem o transporte por comboio até Thérouane, ponto de concentração designado para o CEP.


"A falta de hábitos de higiene propiciou o alastrar das doenças e dos piolhos, sarna e outros parasitas"

Nós não seríamos os mais asseados da Frente Oeste, mas a presença destas pragas era uma constante em todos os sectores. O piolho, a sarna, o pé-de-trincheira e a ratazana eram companheiros inseparáveis de todos os soldados.


"O armamento era insuficiente e inapropriado e ninguém tinha recebido treino adequado para a guerra das trincheiras"

Por razões logísticas, todo o nosso armamento foi fornecido pelos Britânicos. Não fazia sentido estar a montar uma estrutura apenas para duas divisões, quando a já existente funcionava bem devido à experiência acumulada em mais de três anos de guerra. O equipamento era praticamente igual ao das outras forças do Império Britânico: espingardas Lee-Enfield, metralhadoras Lewis e Vickers, granadas Mills. Só os capacetes eram inicialmente de qualidade inferior (os Brodie Mark I tipo A).

Quanto ao treino, o CEP passou, tal como qualquer divisão britânica, por um período de instrução sobre ataques com gás e tácticas de guerra nas trincheiras. Nenhuma unidade chegava a França e ia directamente para a frente. Veja-se que após a chegada a Thérouane, em Fevereiro, as primeiras tropas portuguesas só entraram em linha no mês de Abril.


"(...) furiosos com as más condições e com as diferenças de tratamento entre soldados e oficiais, muitas vezes os portugueses se sublevaram, se esconderam ou fugiram."

Ao contrário do que se passava no exército britânico, que tinha instaurado um sistema de rotatividade, que significava não só a alternância entre frente, apoio, reserva e retaguarda, mas também a possibilidade de obter licenças, as tropas portuguesas foram obrigadas a uma presença quase constante ao serviço por falta de efectivos. Por outro lado, as licenças eram escassas e privilegiavam os oficiais em detrimento dos praças.

O número de oficiais que veio de licença a Portugal e já não voltou foi altíssimo, causando uma razia nos quadros dos batalhões do CEP. Pelo contrário, o número de deserções registadas entre os praças foi mínimo.


"No dia seguinte [refere-se a 10 de Abril, o dia seguinte ao início da ofensiva alemã no sector português], com a ajuda dos ingleses, começaria a recuperação."

Não foi assim que se passaram as coisas. Os alemães continuaram a avançar até ao final do mês de Abril.

Se houve um mito de La Lys, criado pelo Estado Novo para achincalhar a Primeira República, é lícito que seja desfeito. Mas substituir velhos mitos por outros parece-me apenas uma gigantesca falta de chá.